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quarta-feira, 24 de outubro de 2007

JC entrevista o Professor Marcelo Ennes

Entrevistado(2): Marcelo Alario Ennes
Cargo: Professor Adjunto I do Núcleo de Educação e vice-diretor UFS/ITA
Natural de: Santo André/SP
Estado civil: Casado
Filhos(quantos): 3


Parte I: a geral

Jornal do Campus: Por que escolheu o “Campus Itabaina” e a UFS para lecionar?
Prof. Marcelo Ennes: Realmente foi uma escolha. A partir de 2004 percebi que estava na hora de trabalhar na universidade pública. Então comecei uma maratona de concursos, foram 7 no total. Fiz concursos nos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Sergipe. Foi um luta. Na época em que fui chamado para tomar posse no campus de Itabaiana da Universidade Federal, também fui chamado em outras duas instituições: UFSCar (o campus de Sorocaba ) e UFPE (o campus de Caruaru). Minha opção Itabaiana é resultado da combinação de dois fatores: qualidade de vida e a oportunidade de estar começando um projeto novo, no caso um novo campus universitário. Tenho a expectativa que eu possa crescer profissionalmente na medida em que o campus Prof. Alberto Carvalho e a Universidade Federal de Sergipe também cresçam.
Além disso, a opção pelo Nordeste tem um pouco a ver com minha infância. Cresci em uma cidade do interior paulista chamada Ilha Solteira. Essa cidade foi criada com a finalidade de abrigar trabalhadores da construção da usina hidrelétrica de Ilha Solteira no rio Paraná, na divisa norte entre Estados de São Paulo e Mato Grosso do Sul. Tive muitos amigos cujos pais eram originários de Estados do Nordeste brasileiro. Há, nesse sentido, uma certa identificação com a região e com as pessoas que aqui vivem. Na verdade, há um pouco do Nordeste, e portanto de Sergipe em todo o Estado de São Paulo.
JC: O que senhor achou de Sergipe?
Ennes: Conheci o Estado de Sergipe apenas na ocasião das provas do concurso por meio do qual fui admitido na UFS. Ainda o conheço pouco, já que não tive oportunidade de viajar pelo Estado. Em breve, ao lado de outros colegas do campus de Itabaiana, vou visitar 15 municípios do Semi-Árido sergipano. Essas viagens farão parte do desenvolvimento do Programa de Fortalecimento Institucional da Secretarias de Educação do Semi-Árido (Projeto desenvolvido em parceria com a UNDIME – União Nacional do Dirigentes Municipais de Ensino, MEC e UNICEF). Acho que vai ser uma boa oportunidade para conhecer mais aprofundadamente o Estado de Sergipe. Mas, do que eu conheci, gostei bastante. De tudo, o que gosto mais é a convivência com “meus” alunos, colegas e amigos da UFS. Além disso, como dizem na minha terra, sou “bicho do mato”. Antes de me mudar para Aracaju, morei 13 anos em São José do Rio Preto/SP. A cidade com praia mais próxima ficava a mais de 550 km de distância. Hoje, moro a duas quadras do mar... isso é ótimo.
JC: E da cidade onde está localizado o Campus?
Ennes: Acho que os paulistas e os brasileiros das regiões sul, sudeste e centro-oeste tem uma visão muito distorcida do que é o nordeste brasileiro. A televisão e a mídia, em geral, mostram uma realidade parcial e destorcida. O que aparecem são as praias e a pobreza. Itabaiana, como o nordeste todo, é muito mais do que é isso. A cidade surpreende pela pujança comercial. Os problemas de Itabaiana não são muito diferentes do encontrados nas cidades do interior do Estado de São Paulo ou do Brasil em geral. Tenho a convicção que a instalação do Campus Prof. Alberto Carvalho representa um importante passo para que partes desses problemas possam vir a ser minimizados.
JC: O que acha do universitário de hoje, ele difere muito do universitário de 15 anos atrás? Qual o perfil do acadêmico no Campus de Ita?
Ennes: Há 15 anos eu estava na fase final do meu curso de graduação. Concluí o curso de Ciências Sociais no Campus de Araraquara da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” em 1989. Acho que existem algumas semelhanças e algumas diferenças. As semelhanças podem ser observadas na grande diversidade entre os alunos em termos de maturidade acadêmica e política. Quanto às diferenças, eu diria que elas se devem muito aos contextos históricos desses dois momentos. Eu entrei na faculdade exatamente no mesmo mês e ano que Tancredo Neves tomou posse no governo federal (e, logo depois, faleceu). Era o primeiro presidente civil depois de 20 anos de governos militares. Isso estava muito presente em parte dos professores e dos estudantes da universidade. Hoje vivemos o segundo mandato do governo Lula. Algo só imaginável, na época, em nossos sonhos políticos... Nesse sentido, acho que hoje as questões políticas estão menos polarizadas. Hoje todo mundo se diz democratas, todo mundo fala em cidadania, distribuição de renda, idéias que faziam parte discurso e do repertório reivindicatório da esquerda da época... Bem, isso causa certa confusão em termos de projetos e posicionamentos políticos.
JC: O quê o senhor tem a falar sobre a nova política de governo Lula em relação às universidades? Essa política difere muito da de FHC? Como o senhor entende esse plano de expansão e os reflexos no Campus de Ita?
Ennes: Acho que o projeto de expansão está em andamento. Não sabemos onde vai dar. O que posso dizer é que eu não duvido das boas intenções do governo federal. Mas penso, também, que para que esse projeto dê “certo” é necessário muito mais que boa vontade. Esse é um momento muito peculiar de que todos que defendem a universidade pública não podem simplesmente se omitir. O futuro depende das iniciativas e posicionamentos políticos e acadêmicos de toda a comunidade acadêmica e de toda a sociedade civil brasileira.
Nesse sentindo, em relação ao Campus de Itabaiana, penso que o diferencial está em nossa capacidade de mobilização e de elaborarmos um projeto que oriente seu presente e seu futuro.

Parte II: A acadêmica

JC: Em suas aulas, o senhor sempre define a avaliação e a leitura como um mesmo processo. Como isso funciona?
Ennes: Avaliação e leituras fazem parte de uma concepção de ensino-aprendizagem.
Na realidade, o processo é um pouco mais abrangente. O professor tem que ter claro o conteúdo, os objetivos, a bibliografia, a metodologia de ensino e, de modo coerente, o processo de avaliação. O que não se pode admitir é que, no caso, a avaliação e as leituras sugeridas e discutidas em sala de aula sejam coisas “descoladas”. Ou seja, eu não posso, como professor, sugerir uma leitura, e na avaliação pedir outra coisa completamente diferente.
JC: Qual a posição da avaliação no processo pedagógico?
Ennes: Acredito que ela é necessária. Mas a avaliação não é castigo para o aluno e nem instrumento de vingança do professor. Acho que para que exista uma avaliação coerente é necessário, antes de tudo, clareza quanto aos objetivos da disciplina. São eles que orientarão as minhas avaliações, com base na bibliografia sugerida. O ideal é que a avaliação possa sinalizar o quanto as aulas (leituras, debates, atividades etc.) têm “acrescentadas” aos alunos. Ou seja, não se pode conceber que o aluno saia do mesmo jeito que entrou no curso universitário. Tem que haver mudanças. A avaliação é um dos instrumentos para verificá-las.
Além disso, eu concordo que avaliação também revela uma realidade maior, que vai além do caso individual de cada aluno. Se a maioria da classe vai mal, alguma coisa está errada. Essa “coisa” pode ser a didática, pode ser os pré-requisitos exigidos, pode ser o professor etc. É preciso verificar tudo isso também.
JC: No cotidiano do ensino, é possível ao professor estar atento a todos os alunos, dar a devida atenção a cada um?
Ennes: Isso vai depender vários fatores. Por exemplo, em casos de turmas grandes, com muitos alunos, apenas um professor excepcional dará conta das particularidades de cada aluno. Por tanto, há de se pensar no tamanho das turmas. Por outro lado, determinados alunos acabam se destacando ou porque são muito comprometidos, ou pelo motivo inverso, ou seja, são alunos completamente desinteressados. O fato é que os alunos têm que dar sua contribuição para que o professor possa atender pelo menos parte de suas necessidades individuais. Essa contribuição é sua participação em sala de aula. Isso porque, se eu, como aluno, não pergunto, não tiro as minhas dúvidas, não arrisco, o professor tem poucas possibilidades de contribuir de modo mais individual. Como o professor poder conhecer cada aluno, se os alunos não se manifestam?
JC: E a reprovação, onde ela entra nesse processo?
Ennes: A reprovação é um último caso. Entendo que antes de se chegar a essa situação são necessárias algumas iniciativas no sentido de possibilitar a recuperação das notas. Agora, isso depende muito do aluno também. Uma coisa é, como aluno, ler todos os textos, participar de todas as aulas, fazer os trabalhos, em resumo, ser comprometido. Outra coisa é aparecer de vez em quando às aulas, não ler, não perguntar, não tirar as dúvidas. Nesse caso, acho que o aluno já optou pela reprovação, não é mesmo?

Parte III: A administração

JC: O que a comunidade “Campus Itabaiana” pode esperar da atuação do Marcelo Ennes, agora que o senhor assumiu a vice-diretoria do Campus Prof. Alberto?
Ennes: O desafio de uma práxis resultante de princípios teóricos, políticos, éticos e administrativos que sejam marcados pela transparência, humildade e perseverança. (Puxa, parece que estou em campanha!!)
JC: Como se deu o processo de escolha do seu nome para a vice-diretoria do campus?
Ennes: Foi por meio do convite do Prof. Sandro, Diretor Geral do Campus.
JC: Como o senhor vê a autonomia e a atuação do movimento estudantil em Ita em relação à administração do campus?
Ennes: Olha, isso é um assunto seríssimo. Entendo que o movimento estudantil é fundamental para o avanço da universidade em qualquer lugar do mundo. No caso de Itabaiana e da UFS há responsabilidades adicionais quanto aos caminhos da expansão. O movimento estudantil deve ser a vanguarda dentro da universidade, já que ela não está presa a interesses corporativos e imediatistas.
Por outro lado, para que esse papel se cumpra, entre outros elementos (que, particularmente acredito passar pelo comprometimento, seriedade nas práticas, no discurso e na formação político-acadêmica), é necessária a autonomia. A autonomia se constrói com base em projetos. Para isso, é necessário que o movimento estudantil tenha um projeto e será em torno dele que o diálogo com a gestão do campus ocorrerá. Isso evitará os riscos de uma eventual cooptação do movimento pela gestão e, também, o que seria o extremo oposto, a ausência de canais de diálogo e negociações. Em poucas palavras, com certeza vamos caminhar na mesma direção algumas vezes e, em outras, talvez, em direções opostas. Mas, seja qual for o caso, é fundamental manter o respeito e a independência de todos os lados envolvidos.
JC: No que a pedagogia influencia e é fator importante nesse processo de construção de uma sociedade menos apática?
Ennes: Mesmo correndo o risco de uma simplificação abominável para essa pergunta, gostaria de evocar dois grandes estudiosos da educação. De um lado, o sociólogo francês Pierre Bourdieu, para quem a educação pode ser compreendida como um dos principais mecanismos de violência simbólica de reprodução das estruturas opressoras da sociedade, e, de outro, o pedagogo brasileiro Paulo Freire, para quem a pedagogia deve ser libertadora. Como se vê, ambos estão falando das possibilidades da educação e da pedagogia. A escolha, no entanto, não é acadêmica e nem é técnica. A escolha é política, e é nesse terreno que precisamos nos encontrar para construir o nosso próprio caminho.
JC: O que falta aos estudantes de Ita?
Ennes: Temos que evitar analisar os processos sociais, as pessoas ou lugares com base no negativo. Temos esse péssimo costume. Caracterizamos as pessoas, as regiões, as culturas pelo o que elas não têm. Esse raciocínio esconde idéias pré-construídas, pré-constituídas, pré-conceitos sobre o que é o certo, sobre o que deveria ter e sobre o ideal. O importante é que possamos ter a oportunidade de sentar e discutir nosso projeto de universidade e de sociedade naquilo que nos aproxima e nos distancia.
JC: Qual a sua visão numa análise objetiva do que é e do que podemos esperar para o campus de Ita?
Ennes: Objetivamente? Que o campus de Itabaiana marque positivamente o resto de nossas vidas e do destino de toda a região no qual está inserido (bem, isso não é muito objetivo).
JC: A primeira oficina sobre expansão, ensino, pesquisa foi um sucesso. Há algum projeto para a extensão desse projeto?
Ennes: A primeira oficina foi excelente em termos de participação dos alunos. Fiquei muito feliz com isso. Mas o fato é que ela apenas deu início ao seu objetivo principal que é construir o projeto político-pedagógico do Campus Prof. Alberto Carvalho. Esse projeto deve, em poucas palavras, dizer a que veio esse campus. Precisamos discutir nossos destinos, nossos objetivos, nossa identidade. Vamos continuar essa iniciativa. A próxima oficina (que eu sugiro que passe a se chamar fórum) está marcada para o dia 29/10/2007.

Diretores Responsáveis: Jonas “Urubu”, Júnior Alves e Fábio José

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